3.6.12

GRAVURA, POR QUE GRAVURA?

GRAVURA, POR QUE GRAVURA?



Por Ulysses Bôscolo .



A Nuvem e o Tempo Tramados pelo Sol

Se observarmos a natureza das técnicas de gravura, podemos constatar que elas estão em todos os lugares, em todos os destinos e nichos do conhecimento sensível; seja nos livros, nas propagandas populares de rua (emancipadas pelo volante), no papel moeda, na mecânica antiga dos cartões postais e selos, nos espelhos da internet (em chips e placas dos melhores processadores), nos cartões de banco, nas placas que marcam os veículos automotores, nas árvores de um parque com declarações de amor espalhadas nas cascas, no molde industrial da sola dos sapatos, etc.

A trama coletiva imposta pelo uso da tecnologia oriunda da gravação se ramifica, tanto pelas conexões visíveis quanto aquelas invisíveis, que passam despercebidos para o observador comum. Devemos estar atentos a beleza estética destes cruzamentos e principalmente de seu uso.

Os artistas “usam” a gravura (a sensação do sulco sobre uma superfície dura) para permanecer e transcender o tempo.

Andando aqui pela cidade de São Paulo, fico impressionado como as superfícies são atacadas nos transportes coletivos: nos vidros, nos metais e nos acrílicos diversos, com a

ponta de uma faca, um canivete; surrando o molho de chaves para afastar o tédio e criar algum signo (uma identidade na metrópole viva?) que se alimenta de inúmeras expectativas. Não escrevo de uma violência explícita, mas sim, de uma vontade de estar na resistência dos materiais através do sulco como essência do ferro, do vidro e do acrílico: a base para a construção de uma matriz contemporânea, onde as energias somam formas e linguagens complexas no tempo.

Esta é uma mensagem, sempre, do presente para o futuro, mesmo tendo o passado (enquanto origem) como uma pele que oferece sentido as coisas.

Entre os artistas, a gravura de estampa se notabilizou pelo papel.

O papel não é simplesmente uma carta, uma pintura: o espaço mágico de uma escultura que irá introduzir na mente outro espaço (de outra ordem) nos aposentos dos sonhos banhada pela luz das incisões.

O papel é uma pele, mas uma pele destinada também (como estampa) a uma geografia, mesmo que confinada num ateliê.

Todo ateliê é um arquivo de papel, mas um arquivo diferenciado. No ofício da criação de imagens o papel do artista seria o de passar o dia inteiro envolvido com o tempo.

Não há como negar que este veículo, para o espírito, tramou entre as nuvens e o tempo um manto onde tudo pode ser figurado.

Imagino que artífice seja o sol.

Uma exposição é uma célula importante neste processo de conhecimento, principalmente dentro da cidade, tramada pela luz diária de signos que passam pelos olhos e, algumas vezes; lá permanecem fomentando um problema de resistência.

A gravura, no meu modo de entender, é uma gota num oceano repleto de passagens para mostrar a natureza fragmentada do espírito humano. São Paulo, por ser minha cidade natal, é um ponto de partida importante numa jornada, através de pequenas escotilhas que realizo todos os dias no meu ateliê. Em cada xilogravura, uma parte da cidade é sentida, entre as estações do ano.

Aqui tenho visto muitas coisas.

A pequena escala é a grande escala no meu trabalho, pois tento colocar o máximo no mínimo numa pluralidade de valores, como muitos gravadores do ramo da filatelia, que tive a chance de conhecer, entre os dedos. Casas, pássaros, insetos, paisagens terrestres e marinhas, flores, retratos: tudo como uma lente.

Assim são as estampas impressas em papel: uma geografia observada pelos olhos do porto, do espírito, do mundo que recebe a imagem, como um valor entre os homens.

Ulysses Boscolo, noite de 19 de maio 2012.




 













Ulysses Bôscolo de Paula nasceu em São Paulo em 1977. Estudou Artes Plásticas na FAAP formando-se em 1999. Cursa atualmente o Programa de Mestrado em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo (USP) com a orientação do artista Claudio Mubarac.

Trabalha essencialmente com nanquim e bico de pena, gravura em metal, xilogravuras, litografias, pinturas, objetos e ilustrações (Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski pela Ed. 34, Famílias Terrivelmente Felizes e Cabeça a Prêmio, de Marçal Aquino pela Ed (Cosac e Naif, entre outros).

Apaixonado pela paisagem da Serra do Mar e da Serra da Cantareira em São Paulo (um cinturão verde que fica a poucos quilômetros de seu ateliê) procura em suas exposições abordar a natureza em verdadeiras instalações, cobrindo as paredes com estampas realizadas em papéis de uso comum (como papel de seda) e construindo mesas e outros suportes alternativos para os álbuns - objetos provenientes de casas de demolição ou encontrados em caçambas espalhadas na rua.

Em 2007 realizou exposições em N.York pela galeria Gravura Brasileira: Steuben West Gallery, no Pratt Institute e no Goloboroko´s Studio, com curadoria de Eduardo Besen.

Em 2008 realizou exposições de xilogravuras no Japão (Tóquio, Moninoki Gallery em Jiyugaoka) e no Canadá, em comemoração dos 400 anos da cidade de Quebec (Engramme, Centre de Production ef Diffusion em Estampe Atualle). Premiado com o PROAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) desenvolveu ações de desenho e xilogravura sobre a história e a geografia da Serra do Mar, colocados em um álbum intitulado Os Colecionadores de Estampas, com intensa pesquisa a respeito das madeiras e espécies nativas de pássaros e borboletas que vivem na Mata Atlântica.

Recebeu no mesmo ano o prêmio Fernando Pini de excelência gráfica pelo projeto O Caráter Gravado.

Em 2009 realizou seis exposições com destaque para a série de xilogravuras chamada Alçapão ou Diários de Verão pela Galeria Gravura Brasileira, com curadoria de Eduardo Besen e a mostra coletiva Fundos (reunião de álbuns de xilogravuras feitas com madeiras encontradas na rua) pela Galeria Mezanino, com curadoria de Renato Decara.

Em 2010 participou da Feira Anual de Artes (SP-Arte) no Pavilhão da Bienal pela Galeria Mezanino, tendo a obra Alçapão (uma seleção de xilogravuras coloridas e impressas a mão) adquirida pela Pinacoteca do Estado. Abriu no mesmo período, na Galeria Gravura Brasileira a exposição O Livro Rosa com mais de 100 xilogravuras impressas manualmente, em papel de seda antigo, formando um painel abrangente das diferentes espécies de pássaros e insetos que vivem na cidade de São Paulo. As estampas ocuparam as paredes da Galeria como um livro de páginas soltas.

2011 no primeiro semestre, participou da SP-Arte com curadoria de Renato Decara na Galeria Mezannino e de muitos projetos realizados em parceria com diversos artistas; como o Projeto Circulação Gráfica (criado pelas gravadoras Maura de Andrade e Yili Rojas, como resultados do intercâmbio entre xilogravadores da região do Crato e de São Paulo, que pode ser conferido no blog circulagrafica.wordpress.com), do Páginas Impressas (construção de um álbum de gravuras com a colaboração de cinco artistas – Antonio Goper, Maurício Parra, Danielle Noronha, Beatriz Matuk e Luciano Ogura, que foi apresentado em Buenos Aires com curadoria de Eduardo Besen (na Galeria Original Multiple), em Belém do Pará no Ateliê do Porto, em Atibaia na Bienal de Gravura Olho Latino e na Galeria Gravura Brasileira durante o primeiro evento paralelo a Feira Anual de Artes de São Paulo, o SP - Estampa.)

No segundo semestre realizou uma individual na Galeria Gravura Brasileira intitulada BOSQUE, com 125 xilogravuras impressas manualmente em papel de seda verde antigo, como resultado de um ano de pesquisas gráficas em diferentes papéis, madeiras e compensados, transformando o ambiente da Galeria em um livro-instalação.

Em novembro ganhou uma bolsa da Embaixada Cultural do Brasil na Cidade do México para desenvolver uma série de trabalhos gráficos sobre a cultura mexicana, aliada a uma exposição intitulada El Libro Verde, na Sala Guilherme Merquior.

Em 2012, realizou até o momento seis exposições, com destaque para o convite para participar da 6ª Bienal Internacional de Gravura do Douro, em Portugal, para o prêmio Résidence atribuído a sua participação na 15ª Biennale Internationale de La Gravure de Sarcelles, previsto para acontecer de 20 de junho a 4 de julho na École d´Art Janine – Haddad, onde o artista deverá realizar uma gravura e o PROAC 2 (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo através do Projeto O Espelho de Cobre, para desenvolver um álbum de gravura em metal realizado a partir da observação de modelos vivos no ateliê.

Contato
http://atelierpiratininga.blogspot.com

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Ateliê Brusque 68
tel: 11 - 2283.3987 ou 11 - 6445.2302
Atelier Piratininga
11 - 2373.0224

Um comentário:

Ulysses Bôscolo disse...

Olá.
Agradeço ao andré pelo convite em participar deste blog, além de todos que estão participando desta importante iniciativa.
Um forte abraço!
Ulysses.